TECNOLOGIA NACIONAL NO ESPAÇO
Publicado em: Brasília, 27 de julho de 2009

A segunda câmera multiespectral desenvolvida pela Opto Eletrônica, empresa sediada em São Carlos (SP) que recebeu apoio do Programa FAPESP Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE), foi entregue na semana passada ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

O equipamento, que produzirá imagens fotográficas que serão usadas para o monitoramento hidrológico, florestal, agrícola e urbano, integra o projeto de desenvolvimento do CBERS 3 (Satélite Sino-Brasileiro de Recursos Terrestres), programado para ser lançado em 2011.

Nomeada de MUX Free, a câmera, que tem 115 quilos e pouco mais de um metro de comprimento, é a primeira do tipo a ser desenvolvida e produzida no Brasil, de acordo com o engenheiro Mário Stefani, diretor de pesquisa e desenvolvimento (P&D) da Opto e coordenador do projeto MUX.

“O maior ineditismo do projeto é a utilização de lentes anesféricas [não esféricas] em uma câmera para uso em satélites, o que nos permitiu diminuir o número de lentes para obter o mesmo desempenho óptico e deixar a câmera com quatro quilos a menos. A vantagem é que uma única lente anesférica chega a ter a mesma capacidade de até quatro lentes esféricas”, disse Stefani à Agência FAPESP.

O equipamento registra imagens nas cores azul, verde e vermelho, além de infravermelho e é dividido em três módulos: a câ¬mera propriamente dita composta pelas lentes, plano focal, sistema térmico, radiadores, aquecedores e blindagens, um segundo segmento conhecido como “RBNB”, responsável pelo controle de temperatura e do sistema de ajuste focal, e o “RBNC”, que processa e acondiciona as imagens para envio à base de apoio do Inpe na Terra.

“A MUX Free, que será utilizada para os ensaios de engenharia em terra, tem alta definição e possui seis mil pixels, sendo que cada pixel cobre uma área de 20 metros no solo”, explica Stefani.

Cumprindo uma das funções do Programa Espacial Brasileiro da Agência Espacial Brasileira (AEB), que é a qualificação da indústria nacional, a Opto Eletrônica também foi contratada via licitação pública pelo Inpe para o desenvolvimento tecnológico e fabricação de mais quatro câmeras semelhantes à MUX Free, que também serão usadas em testes e no satélite CBERS 3 e CBERS 4, este último com lançamento previsto para 2014.

Seis câmeras

O projeto custou cerca de R$ 50 milhões para a Opto Eletrônica e, ao todo, são seis câmeras, sendo três destinadas aos testes de qualificação que antecedem o voo, duas que integrarão a carga útil dos satélites e uma que ficará de reserva para substituição em caso de quebra. Os equipamentos vêm sendo desenvolvido pela empresa desde 2004 por uma equipe de cerca de 20 profissionais, principalmente engenheiros e físicos.

“A próxima câmera, que irá voar no satélite sino-brasileiro CBERS 3, deverá ser entregue em abril de 2010, quando deverão começar os trabalhos de integração do equipamento no satélite”, aponta o pesquisador.

Com os satélites do programa CBERS o Brasil monitora, entre outras coisas, desmatamentos e a expansão urbana e agropecuária. Já foram lançados três satélites da série, o CBERS 1, 2 e 2B, o último atualmente em órbita com uma câmera com funções semelhantes às da MUX Free, porém produzida na China.

Considerado um dos principais programas de sensoriamento remoto em todo o mundo, ao lado do norte-americano Landsat, do francês Spot e do indiano ResourceSat, o programa CBERS possui uma política de fornecimento gratuito das imagens de satélite e mais de meio milhão delas já foram distribuídas a cerca de 20 mil usuários em mais de duas mil instituições públicas e privadas.

Segundo Mário Stefani, com o desenvolvimento tecnológico das câmeras pela empresa brasileira o país começou a ganhar autonomia na área de produção de equipamentos ópticos para satélites.

“A ideia é até exportar essas tecnologias para outros países, mas agora o nosso vestibular é colocar a câmera no espaço com o CBERS 3 para, assim, podermos fazer parte do clube das nações que fabricam sistemas de imageamento para uso orbital, formado atualmente pelos Estados Unidos, Rússia, França, Israel, Índia e China”, disse ele.

A Opto Eletrônica foi fundada em 1985 por, na época, pesquisadores e técnicos da Faculdade de Física da Universidade de São Paulo (USP), em São Carlos, e atua em diversas áreas, como óptica de precisão, filmes finos especiais e aplicações médicas e industriais a laser.

“Desde 1997, a Opto e suas empresas afiliadas foram apoiadas com seis projetos PIPE da FAPESP, que financiaram especialmente estudos nas áreas aeroespacial e de equipamentos oftálmicos para uso médico”, apontou o diretor da empresa.

Mais informações: www.opto.com.br