Benefícios econômicos

As justificativas para investimentos nacionais em um programa têm origem nos benefícios resultantes desses investimentos. Hoje, é certo que a exploração espacial das últimas décadas modificou a vida moderna não tanto pelas descobertas científicas que surgiram como resultado dessa exploração. Elas tiveram como resultado a criação de inúmeros novos mercados que se mantêm de forma perene e lucrativa. Por exemplo, hoje é praticamente impossível falar em comunicação a longas distâncias sem de certa forma citar um componente ligado ao espaço. Um exemplo notório é a transmissão de imagens via satélite, cuja dependência de infraestrutura espacial é orgânica em sua cadeia de qualidade e dela inseparável em qualquer escala de tempo no futuro.

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Fig. 1  Valor médio de um quilograma de commodity comparado a um quilograma de tecnologia espacial.

A importância da manutenção de um Programa Espacial para países em desenvolvimento é considerável. Maior ainda é sua importância para um país do tamanho do Brasil. Para ilustrar essa afirmativa, basta comparar os preços médios de commodities e de artefatos espaciais no mercado internacional (Fig. 1). Tal comparação evidencia a dependência econômica entre países e a necessidade de se ampliar investimentos no espaço, bem como na transferência de tecnologias do espaço para processos industriais nacionais.

O mercado espacial

Os benefícios econômicos da exploração espacial podem ser divididos em dois: os benefícios diretos – como aqueles obtidos diretamente a partir da cobrança de serviços que usem o espaço – e os benefícios indiretos.

Para se ter uma ideia dos indiretos, perguntas pertinentes são: quanto vale um sinal de alerta de desastre provido por um sistema de satélite? Qual o valor dos benefícios do planejamento avançado de colheitas, a previsão de volumes de água para agricultura e para a população? Qual o valor de uma floresta inteira (Fig. 2) salva por meio de ações tempestivamente planejadas com base na análise avançada de imagens ópticas ou de radares instalados como cargas úteis de satélites?

Valores indiretos podem ser de mais difícil determinação quantitativa, mas todos concordam que eles são elevados.

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Fig. 2 Imagem de satélite com radar de abertura sintética mostrando a evolução no tempo de um desmatamento na região do Mato Grosso em 2016. Imagens como essa ajudam na execução de políticas de proteção ambiental em toda Amazônia legal, que tem claros benefícios indiretos. Fonte: CENSIPAM.

Do lado da oferta, os principais atores do mercado espacial podem ser divididos em dois: o governo e o setor privado. Eles fazem parte de uma extensa cadeia de valor com duas principais dimensões:

  • uma força de “baixo para cima” ou da indústria de lançadores ou artefatos responsáveis pela disposição de infraestrutura no espaço;
  • uma força “de cima para baixo” ou de amplos setores responsáveis pela manutenção, operação e tratamento de serviços espaciais, bem como fornecedores de tecnologia dedicada.

Entre esses dois grandes grupos, as agências espaciais têm papel fundamental por, muitas vezes, operarem em ambos os segmentos ou realizarem a ligação entre esses grupos, coordenando e executando missões espaciais.

Do lado da demanda, o mercado apresenta dois grandes grupos:

  • Instituições governamentais que produzem tecnologia espacial ou geram missões espaciais de variado interesse, desde aplicações no mercado de telecomunicações até monitoramento de recursos terrestres, passando por aplicações militares, missões tripuladas ou planetárias de interesse científico;
  • Mercado internacional, o qual é formado por inúmeras empresas privadas ou de capital misto, que fornecem serviços baseados no espaço tais como sensoriamento remoto e telecomunicações, dentre outros.

Dessa forma, existe uma relação simbiótica do mercado internacional com as instituições governamentais, uma vez que a demanda institucional alimenta o mercado de lançadores, sem os quais não existiria demanda puramente privada.

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Fig. 3 Divisão, por função, de uso de satélites operacionais no mundo. Fonte: Satellite Industry Association.

Independente das motivações para o mercado espacial, quais são os seus números? De acordo com relatório recente do grupo Tauri (Satellite Industry Association), o mercado espacial internacional teve um crescimento médio da ordem de 3% entre 2014 e 2015, com lucros globais da ordem de USD 208 bilhões. Desse lucro, 60,5% está relacionado a serviços de satélites, 28,7% relacionado à infraestrutura de solo, 2,9% associado à indústria de lançadores e 7,8% ligado à manufatura de satélites. Os ganhos da indústria de satélite cresceram o dobro da indústria global nos últimos dez anos (4% em 2014, comparado a 2,6% do crescimento econômico mundial). A Fig. 3 ilustra graficamente a divisão de uso de satélites operacionais por função. Como é possível ver, a maior parte é usada para comunicação comercial, sendo de destaque o uso para observação da Terra.

Segundo esse mesmo relatório, o número de satélites em órbita aumentou aproximadamente 40% nos últimos cinco anos, sendo que a maior contribuição adveio de pequenos satélites em órbitas terrestres baixas (altitudes abaixo de 2000 quilômetros). Com relação ao crescimento por segmentos em 2015, temos:

  • Um crescimento de 4% observado em serviços de satélites, sendo que o maior ímpeto de crescimento é dado por serviços ao consumidor;
  • Um crescimento de 4% em serviços de fabricação de satélites caracterizado por alto número de lançamento de satélites de valor mais elevado em 2015;
  • Um decréscimo de 9% em serviços de lançamento, com redução no número de demandas comerciais;
  • Um crescimento de 1% no setor de equipamentos de solo (dispositivos para consumidores e redes).

O maior crescimento de operação de satélite (cerca de 10%) foi observado no setor de serviços de observação da Terra, o qual inclui aplicações para agricultura, detecção de mudanças na superfície, meteorologia e levantamento de recursos.

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Fig. 4 Lançamento do SERPENS I pela Estação Espacial Internacional. Iniciativas da AEB, como o SERPENS, seguem as expectativas globais de aplicação para nanossatélites para a próxima década.

Com relação ao futuro, espera-se uma explosão no crescimento da indústria de satélites muito pequenos (com massa abaixo de 10 kg). Em números,  espera-se um crescimento da ordem de 13% ao ano entre 2016 e 2022 (Relatório “2017 Nano/Microsatellite Market Forecast”, Space Works). Essas projeções implicam no lançamento de aproximadamente 3000 satélites. O setor comercial e civil continua a alimentar a demanda por nanossatélites e uma divisão das aplicações previstas segundo o relatório da Space Works pode ser vista na Fig. 5. De acordo com essa divisão, há pouca expectativa para o setor de comunicações nas aplicações de nanossatélites, talvez por conta de restrições tecnológicas. Já a observação da Terra concentra as maiores aplicações, com destaque para o sensoriamento óptico remoto.

A Agência Espacial Brasileira (AEB) já participa dessa iniciativa, tendo lançado o programa SERPENS, que pretende reunir projetos de nanossatélites na forma de consórcio entre universidades e centros de pesquisa, através da sua Plataforma E2T.

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Fig. 5 Divisão de aplicações esperada pelo mercado de nanossatélites para o período 2016-2022.