PRIMEIRO SATÉLITE CONSTRUÍDO POR ALUNOS DO ENSINO FUNDAMENTAL SERÁ LANÇADO NESTA SEXTA
Publicado em: Brasília, 9 de dezembro de 2016

O projeto, desenvolvido numa escola municipal de Ubatuba (SP), contou com a participação de 700 estudantes desde 1990, quando teve início. Apoio da AEB e do Inpe foi fundamental para a construção do satélite.

 

Um satélite desenvolvido por alunos do ensino fundamental em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e a Agência Espacial Brasileira (AEB) será lançado nesta sexta-feira (9), do Centro Espacial Tanegashima, no Japão. Conhecido como UbatubaSat, o satélite ficará na Estação Espacial Internacional (ISS) e será colocado em órbita definitiva no dia 19 de dezembro.

O satélite foi desenvolvido na Escola Municipal Presidente Tancredo de Almeida Neves (ETEC), de Ubatuba (SP). Coordenador do projeto, o professor de matemática Cândido Moura explicou que a ideia surgiu em 2010, com a notícia de que a Interorbital Systems, empresa da Califórnia, tinha desenvolvido um foguete de baixo custo e estava comercializando kits de microssatélites. “Eu achei interessante montar um com meus alunos. A gente fez um contato com eles para confirmar valores, na época era cerca de 8 mil dólares. Duas coisas chamaram a atenção: os alunos seriam os mais jovens do mundo a estarem integrados em um projeto espacial e precisaríamos de suporte técnico para desenvolver o projeto”, disse.

Foi assim que o professor entrou em contato com o Inpe, que se prontificou a apoiar o projeto. “Eu nunca tinha ido ao Inpe na minha vida. Conversamos com o doutor Mário Quintino [coordenador de Engenharia e Tecnologia Espacial]. Quando mostrei, ele ficou encantado e falou que o Inpe estaria no projeto.”

Segundo o professor, houve uma primeira tentativa de desenvolver o satélite com o kit americano, mas o equipamento acabou redesenhado pelo pesquisador Auro Tikami, como parte de seu projeto de mestrado no Inpe. “Ele concluiu neste ano o mestrado, e o trabalho dele foi fazer a engenharia do satélite para atender aos novos requisitos. Vai ser o primeiro satélite brasileiro desta classe totalmente projetado e construído no Brasil a funcionar em órbita”, ressaltou Cândido Moura.

Para Auro Tikami, a participação no projeto se transformou em uma grande oportunidade de aprendizado, e o UbatubaSat serviu “como uma forma objetiva de difusão de conhecimento junto à comunidade de estudantes e professores interessados em levar ciência para dentro das salas de aula”.

O projeto conta ainda com a parceria da AEB, que arcou com os custos dos testes e do voo do satélite para estação espacial. Além disso, a agência incluiu os alunos no programa Satélites Universitários, criado para fomentar o desenvolvimento de satélites nas universidades brasileiras. “A AEB apoiou o lançamento do satélite seguindo a premissa de tentar prover o acesso ao espaço em iniciativas de sucesso como essa. Essa foi a primeira inciativa do Brasil que envolveu estudantes do ensino fundamental na construção de um satélite, para despertar o interesse do aluno. Todos se envolveram bastante com os temas, como eletrônica e física, e aparentemente é uma coisa que pode contribuir no médio prazo para a formação de pessoas para atuar na área de ciência e tecnologia”, disse o tecnologista Gabriel Figueiró, da Diretoria de Satélites, Aplicações e Desenvolvimento da AEB.

Testes

Em relação aos testes ambientais, o físico Cândido Moura explicou que um foguete para ir a órbita tem que chegar a 350 quilômetros de altitude numa velocidade de 28 mil quilômetros por hora. “Então, você imagina a aceleração e o nível de vibração que é gerada. Por isso, você tem que testar, por exemplo, se o equipamento suporta esse nível de vibração. Qualquer coisa que você coloque em uma órbita baixa como essa vai dar umas 14 voltas por dia na terra. Quando ele está iluminado pelo Sol, a temperatura é em torno de 100 graus Célsius. Quando está na sombra atrás da Terra, a temperatura é de menos 100 graus. Existe uma série de testes que precisam ser feitos no equipamento para garantir a segurança em órbita.”

O professor contou ainda que esses pequenos satélites foram criados na década de 1990 como uma ferramenta pedagógica para que estudantes de mestrado e doutorado pudessem ter uma experiência prática durante sua formação. “Depois, as universidades perceberam que era possível embarcar uma série de experimentos nesses satélites, assim como estamos fazendo. Hoje, você tem umas 30 universidades no mundo que constroem esse tipo de satélite.”

Cargas

O satélite que será lançado nesta sexta-feira tem duas cargas úteis. Uma carrega um gravador chip com a mensagem da escola que será transmitida em órbita “Aprender no presente é construir o futuro”. A outra leva um experimento do Inpe para estudar as chamadas bolhas de plasma da atmosfera, fenômeno ionosférico que compromete a captação de sinais de satélite e antenas parabólicas em países localizados na linha do Equador.

“A gente colocou um gravador chip e fez um concurso na escola para escolher a mensagem que será transmitida em órbita. Também há uma sonda langmuir que é um experimento de astrofísica do Inpe para estudar a formação de bolha de plasma na ionosfera, um fenômeno natural que interfere, por exemplo, no sinal de GPS, controle de aeronaves e tem uma série de aplicações práticas”, observou.

Experiência única

Os alunos que participaram da construção do satélite tiveram a oportunidade de viajar para o Japão e para os Estados Unidos, onde conheceram a Nasa. “Todo o ano a gente abre uma turma nova e participam em média 70 alunos. Na construção do projeto do satélite que vai ser lançado, participaram seis alunos. A gente faz muitas atividades dentro do projeto. Para você ter uma ideia, quando a primeira turma estava no 8º ano, eles escreveram um paper e o submeteram ao principal congresso aeroespacial do Japão. O paper foi aceito e 12 alunos foram para o Japão patrocinados pela Unesco para apresentar o paper e participar de uma feira. Ao todo, já passaram pelo projeto cerca de 700 alunos”, acrescentou.

Uma das alunas que participou do projeto, Nathalia Martins da Costa, tinha 11 anos na época. Para ela, o UbatubaSat foi decisivo para a escolha do curso de Engenharia Eletrônica. “Foi uma experiência muito importante na minha vida, porque eu não sabia o quanto eu era interessada pela tecnologia. Ele me ajudou a ter um foco e saber o que eu realmente gosto. Hoje, sou muito interessada, principalmente na área de eletrônica, e quero fazer uma faculdade voltada nisso. Se eu não tivesse participado do projeto eu não saberia até hoje o que eu gosto realmente”, disse a jovem de 17 anos.

Ainda em dúvida sobre o futuro, Rafaela Daniol Torres, também 17 anos, lembra a experiência no Inpe . “O professor disse que a gente ia construir um satélite, mas a gente não sabia como. Aí a gente fez um curso no Inpe, aprendeu a soldar e outras coisas. Foi uma experiência única. Quando comecei era uma criança ainda. Então, fez toda diferença na minha vida, eu fiz coisas que eu nunca imaginei que fosse fazer. Eu fiz viagens incríveis para os Estados Unidos e para o Japão representando o projeto. Aprendemos várias coisas sobre ciência e área espacial.”

O lançamento do satélite pode ser acompanhado pela internet, no link disponibilizado pela Jaxa, a agência espacial do Japão.

https://www.youtube.com/watch?v=bHmcV6bzeCY&feature=youtu.be

foto 1 : Equipe de professores e pesquisadores com alunos do ensino fundamental de Ubatuba responsável pela construção do satélite. 

Crédito: Divulgação MCTIC

Fonte: MCTIC