OLHARES DIVERSOS SOBRE A PRESENÇA HUMANA NO ESPAÇO
Publicado em: Brasília, 9 de maio de 2011

Instituto Europeu de Política Espacial (ESPI, na sigla em inglês), com sede em Viena, Áustria, vem de lançar o 5º volume da série Estudos de Política Espacial, intitulado Seres humanos no espaço – Perspectivas Interdisciplinares, um livro muito bem editado, de capa dura, com 329 páginas. São três os editores: Landfester, U. Remuss, N.-L.; Schrogl, K.-U.; Worms, J.-C.. Mas há 24 autores dos artigos publicados, que atendem aos mais variados interesses como logo veremos.

Esse livro, na realidade, é a continuação e o aprofundamento do primeiro trabalho do gênero na ESPI, elaborado com base nas exposições feitas no simpósio Seres Humanos no Espaço – Odisseias Interdisciplinares, que teve lugar no auditório da própria ESPI em Viena, nos dias 11-12 de outubro de 2007. O encontro, chamado de diálogo global em vista da variedade de participantes de muitos países, foi, no entanto, promovido apenas por instituições europeias – Fundação Europeia da Ciência (ESP), Agência Espacial Europeia (ESA) e ESPI. A Europa trata de pensar o espaço.

Humanos, mais competentes que robôs

O novo estudo sobre as perspectivas interdisciplinares das ações humanas no espaço discute o papel da Europa na comunidade – hoje ainda pequena – de países que investem na exploração espacial com astronautas à frente. E conclui o que já se sabia há tempos: os humanos são mais competentes que os robôs na pesquisa espacial, embora esses possam ser às vezes mais precisos.

Mas a nova temática é mais rica e, talvez, mais “pé no chão”. Fala de governança espacial, um desafio cada vez mais crucial; gestão da exploração espacial e assentamentos na Lua e Marte, que ainda faltam ser regulamentados por legislação internacional; papel dos astronautas no futuro, sem deixar de abordar problemas derivados da descoberta de vida extraterrestre (não esquecer que as 42 antenas de radiotelescópios do Programa SETI – Busca de Inteligência Extraterrestre – foram desativadas após décadas de funcionamento, devido a cortes orçamentários nos EUA).

Vale informar que até setembro de 2009 contavam-se, ao todo, 505 astronautas, cosmonautas e taukonautas (chineses), de 38 países. Uma média de 10 astronautas por ano no meio século desde o voo inaugural de Iuri Gagarin, em 12 de abril de 1961.

O livro por dentro

Vejamos os títulos dos artigos contidos no livro, para, digamos, dar água na boca ou abrir o apetite do leitor interessado:

– Introdução – De “odisséias” e “perspectivas” – rumo a novas abordagens interdisciplinares sobre a presença humana no espaço, por Ulrike Landfester, Nina-Louisa Remuss, Kai-Uwe Schrogl e Jean-Claude.

Capítulo 1 – Política e Sociedade

– Contexto político para a exploração humana do espaço, de Schrogl Kai-Uwe;

– Quem será o proprietário do espaço? Governança sobre os recursos do espaço na era da exploração espacial humana, de Kurt Mills;

– Gerenciar o espaço, organizar o sublime, de Martin Parker;

– Astronautas: de enviados da humanidade a combatentes, Nina Louisa-Remuss;

– Inclusão espacial e empoderamento ou como a fronteira torna-se espelho, de Adrian Belu;

– Currículo escolar para filhos de assentados (colonos) espaciais, de Alan Brito;

– Ética e vida extraterrestre, de Charles Cockell;

– Encontros entre as estrelas – Considerações exosociológicas, de Michael T. Schetsche;

Capítulo 2 – História e Religião

– Astrocognição: Prolegômenos à história futura da cognição da exploração espacial, de David Duner;

– Olhando para a Terra, de Gustav S. J. Schörghofer;

– Vida alienígena: Observações sobre a perspectiva exobiológica na biologia terrestre recente, de Thomas Brandstetter;

Capítulo 3 – Cultura e Psicologia

– Laokoon no espaço? Rumo à hermenêutica transformação da arte, de Ulrike Landfester;

– Música e espaço – meio de comunicação universal ou forma de arte?, de Anna G. Piotrowska;

– Das roupas espaciais à alta-costura espacial: nova estética, de Mark Timmins;

– Olhando para trás, olhando para a frente, buscando o mais elevado: visão das novas gerações sobre a presença humana no espaço, de Agnieszka Lukaszczyk, Bejal Thakore e Juergen Schlutz;

– Humanos no espaço: Realização existencial ou frustração? Questões existenciais, psicológicas, sociais e éticas para a tripulação em uma missão espacial de longa duração para além da órbita da Terra, de Berna van Baarsen.

Capítulo 4 – Anexos

– Endereços úteis de sítios sobre a exploração humana do espaço;

– Visão de Viena sobre a presença de humanos no espaço;

– Relatório Síntese de Avaliação – Comitê dos EUA para Planos de Voos Espaciais Humanos;

– Quadro da Estratégia Global de Exploração Espacial: Estrutura de Coordenação (Sumário Executivo, maio de 2007);

– Resumo das contribuições da Europa à Estação Espacial Internacional (ISS);

– Declaração da SETI sobre Princípios Relativos às Atividades Seguintes à Detecção de Inteligência Extraterrestre;

– Extrato de “A vida em Marte”, de Ben Bova;

– Excerto de “O Sonho – ou Trabalho Póstumos sobre Astronomia Lunar” de Ludwig Kepler;

– Religião e Voo Espacial Humano;

– Ponto de vista do historiador – Abordagens históricas do voo espacial humano e do projeto “Humanos no Espaço”, de Luca Codignola; e

– A experiência de isolamento no Programa Marte 500.

O horizonte mais largo é pouco conhecido

O livro nos revela, sem dúvida, amplo panorama das questões que os seres humanos vivem hoje no espaço, em órbitas da Terra, mesmo que a esmagadora maioria deles – seres aparentemente exclusivos do nosso planeta – não tenha a menor idéia do que está acontecendo sob suas cabeças.

Nosso astronauta poderia ser embaixador

O Programa Espacial Brasileiro, como se sabe, não prevê, nem poderia prever, no estágio em que se encontra hoje, o emprego de astronautas. O primeiro astronauta brasileiro, Marcos Cesar Pontes, permaneceu e fez algumas experiências científicas a bordo do módulo russo da Estação Espacial Internacional (ISS), dos EUA, onde desembarcou e de onde partiu como passageiro da nave Soyuz TMA-8, também russa, entre 30 de março e 8 de abril de 2006. Mas foi um projeto isolado, sem continuidade. Sua missão seria mais de divulgação das atividades espaciais no país. Pontes profere palestras em escolas, procurando despertar nos jovens o gosto pelo conhecimento da astronáutica. Reside atualmente em Houston, EUA, e atua como representante técnico da Agência Espacial Brasileira (AEB) junto à NASA, onde estudou.

O astronauta poderia ser muito útil ao esforço necessário de popularização dos objetivos prementes do programa espacial brasileiro, como a ampliação da cooperação espacial com a China (ampliação do programa CBERS, de satélites de observação de recursos naturais da Terra), Argentina (satélite Sabia-Mar), Ucrânia , Rússia, Alemanha, Índia, África do Sul (satélites IBAS), além de outros países, inclusive e em especial os EUA.

Com os EUA, é bom ressaltar, renovamos há pouco o acordo-quadro de cooperação espacial e agora precisamos urgentemente negociar um novo acordo de salvaguardas tecnológicas que permita às empresas americanas aproveitar as vantagens do Centro de Alcântara como opção segura e competitiva no mercado global de lançamentos comerciais, primeiro através do foguete ucraniano Cyclone-4 e depois através do nosso foguete nacional VLS, modernizado em colaboração com os russos. Os clientes americanos são essenciais para viabilizar as perspectivas de Alcântara.

Neste contexto, Pontes poderia ser um embaixador dos mais altos interesses do Brasil na área espacial.