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Perguntas frequentes respondidas pelo Ten Cel Pontes |
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Como está sendo o treinamento na Rússia?
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O treinamento usual para uma missão espacial numa nave Soyuz sempre foi feito num período de oito a 13 meses. No meu caso, devido à data de decolagem prevista, o mesmo treinamento teve de ser comprimido e completado com sucesso em cinco meses! É uma situação nova, um treinamento em tempo recorde. Em termos comparativos com o programa na Nasa, a diferença básica é a língua. O detalhamento dos sistemas, as sobrevivências especificas para o veículo e muitas outras áreas de estudo e treinamento são agora voltados para a Soyuz e ministrados em russo, idioma que deverei dominar. |
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Como o sr está enfrentando a solidão, a distância dos amigos, o frio e a diferença do idioma (como o senhor irá aprender russo em tão pouco tempo? O que faz nos horários de folga?
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Nessa atividade, aprendemos a “conviver com nós mesmos”. Faz parte dos requisitos de um astronauta. Encaro muito bem a situação e aprender o idioma Russo é uma oportunidade bastante interessante. O tempo é curto, portanto não dá para desperdiçar muito. Assim, nesses tempos por aqui minha vida se divide em: treinamento, aulas de Russo, estudo e descanso diário de 9 horas. Nessas 9 horas de folga diária eu durmo 6h, uso 1h para alimentação (café, almoço e jantar), sobrando 2h para conversar com a família e amigos, ouvir música, e responder correspondência. |
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Como é a rotina do senhor na Rússia? Quais serão os principais passos de agora em diante até o vôo de março?
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A rotina diária inicia às 06:00 h. Seguem-se aulas, treinamento em simuladores, testes e exames, preparação física e estudo. Além disso, existem treinamentos específicos de sobrevivência, testes de equipamentos, execução de experimentos científicos, etc...realizados em momentos oportunos fora do Centro. Até março a vida será assim...cheia de atividades e o nível de preparação crescendo a cada dia. A experiência de ter conhecido a preparação na NASA e todo o processo por aqui é profissional, cultural e pessoalmente extremamente interessante. |
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Durante quanto tempo o senhor ficará na Rússia, quem da família está acompanhando o senhor e o que o senhor irá fazer aí, de diferente, em relação ao treinamento realizado nos Estados Unidos? O que mudou?
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Estou sozinho. A minha família permaneceu em Houston, Texas, visto que deverei voltar para lá após as atividades do pós-vôo para continuar os trabalhos no programa da participação brasileira na ISS, onde estamos na fase de fabricação dos protótipos das partes nacionais, na seleção de pesquisadores e trabalhos brasileiros para intercâmbio com a NASA e outras agências, na preparação do processo de licitação para empresas nacionais para a fabricação dos componentes da ISS e na definição e testes dos experimentos nacionais para execução a bordo da ISS no espaço. Além disso, logicamente ainda existe o vôo previsto no ônibus espacial, segundo o contrato vigente de participação brasileira na ISS. Depois do vôo no Soyuz, eu tenho que retornar aos treinamentos naquela espaçonave. Espera-se que ele retorne com sucesso ao vôo em Maio de 2006. Ainda sobre a ISS, graças a atuação competente e eficaz da administração atual da AEB, na pessoa do seu presidente, o Dr. Sérgio Gaudenzi, e da gerência técnica do projeto da ISS, a cargo do Dr. Raimundo Mussi, a parceria estabelecida com o SENAI-SP está se desenvolvendo plenamente e os primeiros protótipos brasileiros irão ser entregues até fevereiro de 2006, conforme afirmou o presidente da FIESP e do SENAI-SP, o Dr. Paulo Skaff, em seu discurso de abertura da Olimpíada do Conhecimento, ocorrida em São Paulo no mês passado. Na ocasião, além de outras autoridades do setor governamental e privado, também estavam presentes o Presidente da República, o Ministro da C&T, o Ministro da Indústria e Comércio e o Ministro das Relações Exteriores.
Aqui em Star City, cheguei no dia 13 de outubro. Desde então, estou em treinamento contínuo. A razão da pressão de tempo é que o treinamento para uma missão como esta sempre foi realizado entre 8 a 13 meses. No meu caso, devido à data de decolagem prevista, o mesmo treinamento tem de ser feito em 5 meses! É uma situação nova. Um treinamento em tempo recorde nunca antes realizado. A Agência Espacial Russa concordou em encarar este desafio devido à minha experiência de sete anos de treinos anteriores na Nasa.
A espaçonave Soyuz Russa é o veículo de abandono de emergência da Estação Espacial Internacional. Portanto, eu já conhecia de forma resumida os seus sistemas, além, logicamente do conhecimento sobre os sistemas da ISS. Contudo, agora preciso conhecer a fundo seus sistemas desde a decolagem (coisa que não era prevista na situação de emergência). Logicamente, a filosofia e metodologia do treinamento segue o mesmo padrão, velho conhecido meu na NASA durante 7 anos. Mas o detalhamento dos sistemas, as sobrevivências especificas para o veículo, e muitas outras áreas de estudo e treinamento são agora revestidas em Russo, o idioma que deverei dominar os conceitos básicos para a operação dos sistemas nos próximos meses.
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Como são os russos com quem o senhor está convivendo (isso em relacionamento, no contato diário)? Como o Brasil é visto aí ?
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Eu sempre tive muita facilidade em relacionamento nos meios internacionais. Esse tem sido meu trabalho no programa da ISS, representando o Brasil junto a 15 outros países. Aqui, tem sido do mesmo modo bastante bom esse relacionamento. O Brasil é visto como um país alegre, capaz e com enorme potencial no cenário de ciência e tecnologia, a depender das ações positivas que já estão e espera-se que continuarão a ser implementadas nos anos que se seguem. |
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O que muda na preparação entre americanos e russos?
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Basicamente, é necessária uma adaptação completa à espaçonaves e os sistemas russos, visto que tenho toda a preparação para a operação do ônibus espacial e da Estação Espacial. |
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Como o senhor está se sentindo como o primeiro brasileiro a ir ao espaço? O senhor deverá ser lembrado para sempre e terá o nome citado entre os grandes heróis do país, como Alberto Santos-Dumont. Isso deve mexer bastante com a cabeça de uma pessoa?
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Sou uma pessoa que preza muito pelas raízes. Acredito que aquele que se desliga de suas raízes fica “solto no vento”, tornando-se vulnerável psicologicamente aos eventos da vida os ruins e os bons. Assim, eu sempre procuro enfatizar de onde eu vim e o que eu realmente sou. Nasci em Bauru, SP. Meus pais trabalharam a vida inteira para nos dar casa e comida. Mas os tempos eram difíceis, e tive que começar a trabalhar aos 14 anos, através do sistema SESI-SENAI. Ali, nos conselhos dos meus pais (que tinham apenas o ginásio) e nas dificuldades de lutar por um ideal (na época ser um piloto da Força Aérea) foi estruturado o núcleo do que eu realmente sou. Tudo o que veio a ser colocado por cima desse núcleo, com a educação, experiências, reconhecimento, etc, soma na bagagem, mas não pode mudar o núcleo, a raiz. Portanto eu vejo esse evento do vôo como algo de grande importância para o País e me sinto feliz por ter sido escolhido e ter as condições e a responsabilidade de executá-lo. Mas eu sou apenas um instrumento. A missão e o país e que são importantes. Eu continuarei a ser o que eu sempre fui...Brasileiro, Bauruense, filho de Vergílio e Zuleika Navarro Pontes. |
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O que essa missão significa para o país ?
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Especificamente sobre o vôo científico espacial do ano que vem, precisamos deixar bem claro que a mim foi confiada a missão de ir ao espaço e levar comigo além de experimentos científicos e da nossa bandeira, muitos sonhos, ideais, esperanças, orgulho e tantos outros sentimentos de uma nação inteira. Logicamente a missão foi criada pela administração oficial, o governo. Contudo, depois de ser impregnada nos desejos do povo brasileiro, essa missão deixa de ser um compromisso com o governo mas uma responsabilidade minha com o Brasil. Não é uma missão para a minha satisfação pessoal, ou feita apenas para cumprir uma ordem de uma autoridade. Portanto, é meu dever cumpri-la até o final, custe o que custar, contra todos os obstáculos, mesmo com o meu sacrifício, se necessário, em passagem só de ida. Esse é o compromisso que eu dou ao meu país. Esse é o espírito que eu gostaria que o meu país tivesse por mim.
No momento do vôo, estarei fisicamente sozinho, mas através da bandeira brasileira, que tanto tenho orgulho, estarei levando comigo toda uma Nação. Pelas centenas de e-mails e outras mensagens de muito carinho e apoio que recebo diariamente, tenho plena certeza que esta missão irá representar para cada brasileiro algo especial. Um símbolo que ficará para sempre como uma lembrança viva, nos momentos de maior dificuldade, de que o nosso país é um país que tem capacidade de sobra, que nós, brasileiros, temos que nos orgulhar do que é nosso, que não somos apenas o país do futebol e do carnaval, mas sim uma nação forte, com tecnologia, empresas e pessoas capazes, que fazem a cada dia uma história cotidiana de sucesso. A história da luta e do suor diário de cada um de nós, a ser contada por gerações. Uma história de raça, garra, pioneirismo e amor ao Brasil. |
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Qual a função do senhor na equipe que irá ao espaço? Há outros astronautas de outras nacionalidades que estarão a bordo? Qual o número de pessoas da equipe? Há a possibilidade de o senhor pilotar?
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Espaçonaves como o ônibus espacial, a ISS e o Soyuz têm pouca interferência da tripulação em termos de “pilotagem” durante a operação nominal. Exceto em operações de acoplamento e pouso (caso do ônibus espacial). Contudo, cada tripulante precisa cumprir uma seqüência de procedimentos bastante rígida e precisa durante o vôo, estando preparada a qualquer momento para assumir os controles, quando as condições dinâmicas permitem esse tipo de interferência. Na Soyuz, temos espaço para 3 tripulantes. A tripulação será, em princípio, composta por um Russo, um Americano e eu.
Em termos de funções, eu sou um astronauta treinado como "especialista de missão", cujas tarefas no espaço envolvem todas as atividades, excluindo a pilotagem do veículo em situações nominais, isso é função do comandante. Nesta primeira missão brasileira estarei levando e executando experimentos científicos de instituições de pesquisa e universidades brasileiras. Eles ainda estão sendo selecionados pela Agência Espacial Brasileira. |
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Por fim, o senhor já pensou em qual será a primeira frase que o senhor irá dizer pelo rádio, para a nação brasileira, quando estiver lá? Se não pensou, por favor, o que o senhor diria agora, neste momento, se estivesse lá ???
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Isso ficará para o momento próprio. Ou seja ela será apresentada a toda a população Brasileira quando eu estiver bordo da ISS. Contudo, certamente refletirá o pensamento de todos aqueles verdadeiros brasileiros que, como eu, tem as nossas cores estampadas o tempo todo consigo. Não falo apenas de emblemas ou bolachas de macacão ou qualquer vestimenta...falo estampadas no lugar mais importante que temos: no coração.
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O que a família do senhor, esposa, filhos, pais, pensam sobre a missão? Estão com medo, receio ?
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Minha família está acostumada com minhas atividades por mais de 24 anos na Força Aérea Brasileira. Eles conhecem plenamente os riscos envolvidos e apóiam de todas as formas. Nós pilotos militares, civis e outros profissionais da atividade aérea e espacial, temos o treinamento como ferramenta para enfrentar a maioria das condições de emergência. Certamente um vôo espacial possui um nível de risco relativamente elevado quando comparado com a grande maioria das atividades profissionais. Nossas famílias nos acompanham nessa preparação e encaram a emoção básica do medo de forma produtiva e adulta. |
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Como será feita a comunicação com o Brasil durante a missão ?
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Será feita por email e vídeoconferência via sinal de TV e VHF por link com o Centro de Controle de Missão da Rússia e até mesmo via rádio amador, que pretendo aprender a operar durante o treinamento na Rússia. |
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E por que a missão, antes programada para a Nasa, será feita pela agência espacial russa?
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A AEB (Agência Espacial Brasileira) decidiu aceitar o convite da Rússia, também parceiro majoritário da ISS como os americanos, por questões de adequação de tempo de execução do vôo. Nossa vaga em um vôo no ônibus espacial não deverá aparecer antes de 2007. A oferta de um vôo em 2006, ano do centenário do primeiro vôo de Santos Dumont, soma-se a outros fatores favoráveis da relação entre os dois países, para a convergência na definição da missão pela Roscosmos. |
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Qual é a sensação de se preparar para um vôo no mesmo lugar em que Gagarin foi treinado? E decolar da mesma plataforma que ele?
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Existe até o armário dele no ginásio, com as coisas dentro ainda! O meu fica ali, a apenas alguns metros. A motivação é grande. O fato de eu ser o primeiro a levar a bandeira nacional ao espaço é bem conhecido por aqui. Freqüentemente fazem a comparação com o Gagarin.
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O que você pretende fazer quando voltar do espaço? Pretende continuar na carreira de astronauta, em Houston, EUA?
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Logicamente, depois dessa primeira missão científica brasileira, retorno ao trabalho pelo Brasil na Nasa, em treinamento e coordenação técnica para concluir o contrato vigente de participação brasileira na Estação Espacial Internacional.
Pelas cláusulas desse acordo, o governo brasileiro contrata, junto às indústrias nacionais, a construção de partes da estação. Em troca, o Brasil tem direito de usar as instalações científicas da estação para pesquisas, treinamento na Nasa, intercâmbio de pesquisadores e cientistas e vôos espaciais de um brasileiro. |
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O sr. tem esperança de fazer outros vôos, além deste?
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Sim, além da missão na Soyuz, a missão científica a bordo do ônibus espacial continua no contrato de participação do Brasil na ISS. Contudo, devido à situação operacional existente no momento com as três espaçonaves restantes, ela só deverá ocorrer após 2008. |
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O sr. costuma dizer que pretende investir na área de educação. Quais são seus planos?
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Depois de minhas missões na área espacial, meu objetivo é completamente focado no Brasil, para participar ativamente na área de ciência e tecnologia, e para defender uma educação decente e igual para as crianças no Brasil. Isto é, uma igual oportunidade de crescimento profissional e cidadania a todos os brasileiros, em qualquer local do território nacional. Esse é o meu verdadeiro ideal de vida. De certo modo, já comecei a fazer isso na região da minha cidade natal, Bauru (SP), onde coordeno o currículo de todos os cursos de formação ministrados na minha escola. |
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Nos EUA é comum astronautas aposentados investirem numa carreira política. O sr. tem pretensões de disputar alguma eleição no futuro ?
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Uma vez em Houston, há muito tempo, em 1998, o senador John Glenn me disse que este deveria ser o meu futuro. Ele havia pousado da sua missão espacial e estava utilizando a sala vizinha à minha no escritório dos astronautas. Ao me ver caminhando no corredor, ele me parou e disse uma série de coisas interessantes. Entre elas, fez uma comparação entre a minha situação como primeiro astronauta brasileiro e a história dele no programa espacial americano, como o primeiro astronauta americano a orbitar o planeta e, depois, o trabalho dele na política a favor da ciência e tecnologia e o desenvolvimento do programa espacial naquele país. É um exemplo muito bom. Contudo, no presente momento, minha atenção está focada na realização das missões que tenho à frente no campo científico, técnico e operacional.
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INVESTIMENTOS EM ATIVIDADES ESPACIAIS |
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Considerando o próprio estado de penúria do programa espacial brasileiro, o sr. acha que os US$ 10 milhões gastos com o seu vôo são o melhor investimento que o governo poderia fazer com esse dinheiro?
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A importância da presença física do Brasil no espaço é primordial. Não só no sentido científico mas também no sentido do reconhecimento técnico internacional do país. Qualquer pessoa que realmente conheça a dinâmica do mercado internacional de tecnologia sabe muito bem o valor desse reconhecimento.
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Do ponto de vista internacional, a ISS é um bom investimento?
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É um excelente investimento. A penetração de empresas nacionais no bilionário mercado de ciência e alta tecnologia espacial internacional é algo muito difícil. Quantas empresas brasileiras exportam componentes espaciais para esse mercado? Essa resposta nula deixará de existir depois que tivermos as nossas empresas, contratadas pela Agência Espacial Brasileira como fabricantes de componentes, estejam homologadas em qualidade automaticamente em 15 dos principais países desse mercado simultaneamente. Isso será um fato inédito da história espacial no país. |
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SOBRE ASTRONAUTAS E SER ASTRONAUTA |
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Qual o critério da escolha e como é feita? O que se exige de um astronauta?
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A minha escolha como o primeiro astronauta brasileiro foi feita através dos critérios estabelecidos pela AEB em acordo com a Nasa (utilizando a experiência acumulada por 40 anos de seleção de astronautas na Nasa). A seleção foi aberta por edital de convocação nacional e iniciou pela análise de currículos dos candidatos. Depois se seguiram exames médicos, psicológicos e físicos. A última fase foi uma entrevista. Existem requisitos acadêmicos e experiência profissional, porém eu ressalto que os aspectos psicológicos e atitude pessoal são essenciais. Saber trabalhar em equipe, saber seguir e liderar, gostar de pessoas, viver para servir aos propósitos comuns acima dos interesses pessoais, paciência, persistência, determinação e algumas outras características são necessárias no dia-a-dia da atividade.
Aprendi muito ao longo desses anos representando o Brasil junto aos outros 15 países do projeto da ISS. Dificuldades, lutas, vitórias, negociações, emoções, muitas experiências. Tudo isso, somado aos anos de minha carreira como piloto na Força Aérea e ao começo difícil de vida como aprendiz de eletricista na RFFSA, em Bauru, foram essenciais para que eu me desenvolvesse ao longo da vida. Hoje em dia, procuro passar essa experiência durante as muitas palestras que faço em empresas, universidades e escolas brasileiras. Acho essencial “compartilhar” essas experiências e técnicas de preparação pessoal com as gerações futuras. |
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Astronauta é uma das "novas" profissões em nosso mundo. Qual a sua opinião sobre o futuro dessa profissão? Visa mais o exame do nosso planeta ou vê mais à distância, em direção ao universo?
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Sou um grande entusiasta de vôos espaciais "abertos a todos" no futuro. Vejo isso como o desenvolvimento semelhante ao que ocorreu com a aviação comercial no século passado. Os astronautas profissionais serão os correspondentes às tripulações das aeronaves de passageiros hoje em dia. Vamos chegar lá. Além disso, a exploração do universo continuará a passos largos, assim como a extrema necessidade de mantermos um "olho" no nosso planeta e seus recursos. Afinal, temos que ter um lugar para viver enquanto não encontramos "uma alternativa".
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O sr concorda que atividades de astronautas em relação ao nosso planeta, como observação meteorológica, controle de desmatamentos, alterações geológicas, podem ser hoje realizados com a mais perfeita tecnologia de satélites, tornando assim o envolvimento e os riscos para astronautas algo desnecessário?
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Para a exploração espacial, a utilização de sistemas remotos e de seres humanos é uma parceria perfeita. As máquinas são ótimas para iniciar o processo de exploração, são, de forma geral, mais resistentes à viagem e condições ambientais. Contudo, a infinita superioridade do cérebro humano nos processos associativos e raciocínio decisório, somada ao tempo de retardo entre observação, comandos remotos e execução, dita a necessidade do homem para tarefas posteriores na exploração.
Uma máquina pode até passar por cima de vários indícios de vida e não reconhecê-los por não estar programada, preparada, ou naquele momento em modo adequado para tal. Assim, a necessidade de trabalho conjunto é clara. Imagine se Cabral só tivesse mandado sondas para o Brasil e ninguém, por falta de coragem de enfrentar os riscos da travessia, nunca tivesse colocado os pés nas novas terras!
Obviamente é uma comparação hipotética, mas demonstra o absurdo da exploração apenas por máquinas. Por falar nisso, alguém se lembra da data e do nome da primeira sonda que pousou na Lua? E do primeiro astronauta? Pense nisso!
Quanto às funções de observação da Terra, satélites são excelentes ferramentas. Possuem algumas limitações como: dificuldade de adaptação, vida útil limitada, impossibilidade de manutenção direta, isto é, panes imprevistas não podem ser solucionadas (não tem tripulação para fazer a manutenção) a menos que sejam capturados (como já foi feito pelo ônibus espacial), consertados e liberados novamente.
A ISS, que obviamente também pode ser considerada um satélite, pelo fato de ser tripulada (o que acontece continuamente desde 2000), também cumpre as funções de observação da Terra, com várias vantagens, como por exemplo: manutenção de sistemas após falhas, observação e raciocínio dos astronautas, reconfiguração simples do sistema, etc
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O FUTURO DA EXPLORAÇÃO ESPACIAL |
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No futuro, o homem deixará o planeta Terra em busca de novos planetas, colonizando os mesmos, seguindo assim o “terraforming”, quer dizer, adaptar outros planetas às condições exigidas pelo organismo humano?
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Espera-se que sim. Essa é um dos objetivos da exploração espacial, mas nunca podemos esquecer de pesquisar soluções para os nossos problemas aqui na Terra também.
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O presidente Bush, dos EUA, tem emitido sinais de retornar a uma atividade da Nasa mais interessante, seguindo, de certa forma, o otimismo do presidente John F. Kennedy. De concreto, falou sobre a instalação de bases na Lua terrestre e uma missão de astronautas ao planeta Marte. O que o senhor acha disso?
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Acho muito interessante. Certamente, pelo custo associado ao projeto, não acredito que os EUA irão fazer sozinhos esse empreendimento científico. Deve ser algo do estilo da ISS, com a participação de outros países. A busca de desbravar o desconhecido é algo intrínseco do ser humano e nos tem motivado a expandir nossos limites (de conhecimento e físicos) na Terra por milhares de anos. Isso é apenas uma continuação natural desse caminho milenar do homem. De certa forma também, a utilização de recursos em pesquisas espaciais, além dos resultados diretos, também tem os resultados indiretos, como desenvolvimento de produtos oriundos da pesquisa para construção de sistemas espaciais (exemplo teflon, velcro, etc..). Pode-se discutir qualquer coisa, mas que é uma aplicação bem mais útil que conflitos armados.
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O senhor acredita que estes projetos se realizarão ainda dentro de 10 ou 20 anos?
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Sim. Desde que exista “fôlego” em termos de investimento e interesse científico continuado.
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A Via Láctea tem aproximadamente 200 bilhões de estrelas. Também temos no universo mais 200 bilhões de sistemas solares, algo inimaginável para uma pessoa normal. O senhor faz parte daquele grupo de cientistas que acredita que “vida humana” deve existir também em outros planetas?
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Sem dúvida. Qualquer cientista sabe que não se pode extrapolar uma curva para muito além da região de pontos conhecidos e experimentados. Assim, o fato de não termos ainda encontrado nada na “relativamente minúscula” parte do universo que conhecemos e podermos, com certeza, afirmar a inexistência de qualquer forma de vida (desde celular até inteligente), não nos garante o direito de extrapolar esses dados para o restante imenso do universo. (Brasília em Dia - set/2005)
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Muita gente critica a utilidade de vôos tripulados. Como o sr. vê essa questão?
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Imagine o que seria de nós se na época do Descobrimento não houvesse pessoas com coragem para tripular as caravelas e, portanto, mandassem apenas "sondas" não-tripuladas para fotografar o novo continente -hipoteticamente, é claro. Os vôos tripulados são parte essencial dos programas espaciais. Pessoas se identificam com pessoas apenas, não com máquinas. A diferença entre dizer o que não deveria ser feito e realizar o que diziam ser impossível é justamente a coragem de arriscar. De qualquer modo, com o tempo, sem a participação humana, viria a questão pública -afinal, qual a razão de explorar o espaço se nunca iremos para lá? Essa ligação, esse desejo intrínseco do homem na exploração, que já foi comprovado durante toda a história espacial, é a verdadeira mola propulsora. Mantenha apenas vôos não-tripulados e o programa estará destinado à perda de interesse público, à perda de orçamento e ao fracasso em alguns anos.
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O que o sr. pensa do turismo espacial?
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Pontes - Gosto muito [ ] da idéia! [ ] Por certo, ainda temos que aprender muito em termos de tecnologia de sistemas e pesquisas de vôos de longa duração até que possamos ter um turismo espacial adequado e seguro. Contudo, sem dúvida esta atividade será um grande mercado no futuro. Isso é muito bom para todos, principalmente para nós, astronautas, pois o desenvolvimento de turismo espacial e a existência de passageiros nos abre um ótimo campo de trabalho. Idêntico ao caso do desenvolvimento inicial da aviação.
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* Baseadas em entrevistas reproduzidas dos seguintes veículos: Revista Brasília em Dia (set/2005), Revista Aerovisão (nov/2005) e Folha de S. Paulo (04/12/05)
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