CONTEMPLE O CÉU SEM INTERFERÊNCIAS
Publicado em: Brasília, 25 de junho de 2009

Qual a nota você dá para o céu da sua cidade? Já faz muito tempo que não o vê? Ou só observa as luzes do próprio prédio? Essas são algumas questões que astrônomos profissionais e amadores, incluindo você, precisam responder para participar da campanha de conscientização para a qualidade do céu. Em Belo Horizonte, ela foi lançada em 14 de junho, no Observatório do Museu de História Natural e Jardim Botânico da Universidade Federal de Minas Gerais. Com o nome de “Maratona da Via Láctea”, a campanha, feita em todo o Brasil, faz parte das atividades do Ano Internacional da Astronomia e tem como objetivo apontar até que ponto a ação de observar o céu é prejudicada pela iluminação artificial inadequada.

Essa iluminação é chamada poluição luminosa e capaz de interferir na luz dos astros vista da terra. Ela é originada de holofotes mal instalados, postes que dispersam parte da luz para o céu e não para o chão, além de lâmpadas inadequadas. Físicos e astrônomos calculam em 40% o desperdício de energia por causa da poluição luminosa.

Com experiência em observação dos “céus” da Região Metropolitana de Belo Horizonte, e também de Milho Verde, no Vale Jequitinhonha, o físico Leonardo Marques Soares tem certeza que os moradores da capital já perderam muito com a chamada poluição luminosa. “Ela afeta não somente os astrônomos ou quem gosta de olhar as estrelas, mas a flora, a fauna e a vida das pessoas, uma vez que desperdiça energia elétrica iluminando o que já tem luz própria”, diz Leonardo, apontado praças públicas como exemplos de fontes de poluição luminosa.

Para ele, a demonstração clara de como a luz artificial vem afetando a visão do céu está no momento em que se tenta tirar uma foto de estrelas ou constelação. “Já na observação visual é nítido que a quantidade de estrelas na capital é muito menor do que no interior. Mas quando se tenta fotografar o céu com um tempo de exposição maior do filme, a intervenção da luz artificial das cidades se torna inquestionável. Em BH, por exemplo, a gente não consegue fazer uma foto com exposição de cerca de 40 minutos. Nesse caso, se a foto não queimar, ela ficará toda amarela, mostrando que só registrou as luzes de postes. Já no interior, como Diamantina e Milho Verde, você consegue fazer fotos do céu com exposição de até uma hora e meia”, afirma o especialista.

Para tentar conscientizar as pessoas a respeito dessa questão e avaliar a qualidade do céu da capital, o projeto Quarta Crescente, do Observatório do Museu, promoverá, a partir de hoje, uma série de avaliações, precedidas por explicações de professores de Física e monitores do observatório.

Uma delas será a escala de magnitude limite para o céu, baseada na constelação de Escorpião. A cada visitante do observatório será pedido que avalie o céu do nível zero, em que não é possível ver nenhuma das estrelas, até o dez, em que o observador tem a visibilidade de toda a constelação.

A atividade vai ser repetida nos próximos encontros do projeto e os resultados da pesquisa serão publicados pela organização do Ano Internacional da Astronomia no Brasil.

Melhorias serão apontadas

A intenção é que, a partir dos resultados da avaliação, as autoridades sejam comunicadas sobre a necessidade de melhorar a iluminação da cidade. Para mostrar que físicos e astrônomos não querem apagar de vez a cidade – e torná-la, por exemplo, mais violenta -, o professor do Departamento de Física da UFMG e coordenador do Observatório Frei Rosário, Renato Las Casas, lembra do projeto feito no Condomínio Quintas da Serra, em Caeté.

“Em parceria com a Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig), nós criamos um projeto para que a iluminação do condomínio não interferisse nas atividades do observatório, ou seja, com a visão do céu. Lá, eles substituíram as lâmpadas de mercúrio pelas de vapor de sódio, estudaram os espaçamentos entre os postes e voltaram toda a iluminação para o chão, o que reduziu e muito a interferência da luz artificial com a visão do céu. Outra ação fácil de ser desenvolvida foi o estudo dos tipos de pisos a serem colocados abaixo das luzes artificiais. Optou-se por pisos de pouca reflexão”, disse Las Casas.
Para o professor, a maior aquisição que se pode obter por meio da campanha de conscientização sobre a qualidade do céu é a descoberta da Via Láctea. “O que atrapalha a observação do céu não são as luzes das ruas ou das casas, mas a que é desperdiçada nestes locais. Quem já viu a Via Láctea sabe que é tão linda como uma lua cheia no horizonte. Porém, ela é mais difícil de ser vista. É uma faixa de estrelas que corta o céu de fora a fora, e que ninguém mais esquece depois de vê-la”, diz.
O Observatório do Museu de História Natural da UFMG fica na Rua Gustavo da Silveira, 1.035, Bairro Santa Inês, na capital.