CHINA LANÇA GPS PRÓPRIO E AVANÇA COMO POTÊNCIA ESPACIAL
Publicado em: Brasília, 3 de janeiro de 2013

José Monserrat Filho *

 

O Sistema de Navegação e Posicionamento da China, batizado de Beidou – Ursa Maior, em chinês – e de Compass, em inglês (bússola, em português), entrou em operação no dia 27 de dezembro, com serviços públicos e comerciais para a região Ásia-Pacífico, inclusive a Austrália.

O Beidou começou a ser construído no ano 2000 e tem hoje 16 satélites de navegação e quatro satélites experimentais. Oferece precisão de posicionamento de 10 metros e velocidade de 0,2 metros por segundo. Sincroniza os relógios com precisão de 50 nano-segundos. Isso é fundamental para guiar mísseis, dando-lhe vantagem sobre os outros sistemas existentes.

            Definido oficialmente como uma das “indústrias estratégicas emergentes” da China, sua meta para 2020 é prestar serviços globais de posicionamento, navegação e cronometragem, com 35 satélites. Quer dizer, disputar o mercado global com os outros sistemas.

Por enquanto, porém, abocanhar os 95% do mercado nacional, hoje dominados pelo GPS (Global Positioning System – Sistema Global de Posicionamento) dos Estados Unidos, já está de bom tamanho. “A China tem grande mercado interno, para onde o sistema Beidou pode levar benefícios  tanto a militares quanto a civis”, afirmou o jornal China Daily.

Aqui, vale o depoimento de Cao Hongjie, vice-presidente da UniStrong, empresa prestadora de serviços globais de navegação por satélite. Ele contou que sua empresa, quando usava o GPS, embora o serviço fosse bom, não se arriscava a desenvolver chips com base nesse sistema, por temer que, de repente, os EUA o desligassem”. E lembrou que os investimentos para se desenvolver um chip são consideráveis. Agora com o Beidou, disse Cao, poderemos desenvolver mais serviços com total segurança. Isso explica muito do sucesso interno do Beidou na China.

Só um caso de rivalidade? – A mídia ocidental tornou a repetir: o Beidou, controlado pelas Forças Armadas chinesas, vem rivalizar com o GPS – criado em 1973 como instrumento militar até hoje operado pelo Pentágono, o Departamento de Defesa norte-americano.

Morris Jones, analista australiano de questões espaciais, considera “improvável” que a China realize “incursões significativas” com seu Beidou em qualquer lugar fora do país. Ele disse à AFP que “o GPS está disponível de graça, é grandemente utilizado, bem conhecido e confiável para o mundo em geral; tem o reconhecimento da marca e, com sucesso, já lutou contra outros desafios”. Para Morris, qualquer ganho comercial do Beidou será para a China como “a cereja do bolo”, pois o novo sistema foi desenvolvido principalmente para proteger a segurança nacional.

Pode até ser. Mas entra pelos olhos a realidade de um mercado para produtos e serviços de navegação e posicionamento de satélites (GNSS) estimado em 124 bilhões de euros (164 bilhões de dólares), em 2008, segundo avaliação de impacto elaborada por um grupo do trabalho da Comissão Europeia, publicado em junho de 2010. Com a agravante de que esse valor poderá dobrar até 2030.

De olho no mercado global dos próximos dez anos, a China tenciona aplicar mais de 40 bilhões de yuans (6,4 bilhões de dólares) no desenvolvimento do Beidou, investimento bem maior que o feito até hoje, frisou o diretor do Escritório Chinês de Navegação por Satélite Ran Chengqi.

O GPS custou 10 bilhões de dólares e só começou a operar por inteiro em 1995. É uma constelação de 24 satélites. Cada um circunda a Terra duas vezes por dia, a uma altura de 20.200km. Assim, a qualquer momento, pelo menos quatro deles são visíveis de qualquer ponto da Terra. Sua precisão de posicionamento é de 20 metros (enquanto a do Beidou é de 10 metros, como vimos).

Antes do Beidou, o GPS já tinha dois outros rivais: o GLONASS, da ex-União Soviética e depois Federação Russa, e o Galileo, da União Europeia. O uso do GPS generalizou-se pelo mundo, mas receia-se que o sistema norte-americano seja, de repente, desligado por decisão militar unilateral, como aconteceu durante as guerras no Iraque. As outras grandes potências tendem a não aceitar essa situação de insegurança e dependência numa área tão estratégica.

Cabe citar mais dois sistemas nacionais, o da Índia (IRNSS) e o do Japão (QZSS), ambos de atuação apenas doméstica.

O GLONASS (Globalnaya Navigatsionnaya Sputnikovaya Sistema, em russo) começou a ser criado em 1976 pela então URSS e teve sua constelação concluída pela Federação Russa, em 1995, mesmo ano em que o GPS passou a funcionar a todo o vapor. Hoje, o GLONASS consome um terço do orçamento espacial russo. Já assinou acordo e se instalou na Universidade de Brasília, e atua no Brasil, sobretudo em São Paulo, com notória agilidade comercial.

A cooperação Brasil-Rússia em torno do GLONASS ganhou destaque nos atos assinados durante a visita da Presidenta Dilma Rousseff a Moscou, em 14 de dezembro de 2012. Ficou lavrado que os Presidentes dos dois países “estimularão (…) suas agências governamentais e institutos de pesquisa a estudar a possível ampliação da participação brasileira no desenvolvimento e uso do sistema de navegação por satélites GLONASS, tal como estabelecido no Programa de Cooperação entre a Agência Espacial da Federação da Rússia (Roskosmos) e a Agência Espacial Brasileira (AEB), firmado em 15 de fevereiro de 2012.

O GPS e o GLONASS são, claro, filhos da Guerra Fria, ou seja, têm origem e controle militar. Ambos dispõem de 24 satélites, mas os do GLONASS são distribuídos de modo equidistante em três níveis orbitais com oito satélites em cada um. A mais recente versão, o GLONASS K, completou a necessária cobertura global só em outubro de 2011. Sua vantagem, na comparação com os outros sistemas, é de ser gratuito na resolução máxima, em decímetros. O Galileo deverá cobrar tarifa de precisão ao iniciar suas operações, previstas para o  ano de 2017.

O Galileo foi idealizado como projeto civil, ao contrário do GPS, GLONASS e Beidou. E acena com vantagens relevantes: maior precisão (a confirmar em testes), maior segurança (poderá transmitir e confirmar pedidos de ajuda em emergências) e menos propensão a problemas (pode testar automaticamente sua própria integridade). E mais: poderá operar em conjunto com os outros dois sistemas já existentes, o GPS e o GLONASS, ampliando a cobertura de satélites.

O Galileo terá 30 satélites. Na realidade, 27, pois três deles ficarão em reserva para casos de necessidade. Quando estiver em ação, o sistema terá dois centros de controle, um perto de Munique, na Alemanha, e outro em Fucino, na Itália. Só para tornar o Galileo operacional, agora em 2013, foi requerida a verba adicional de 1,9 bilhão de euros (2,51 bilhões dólares). Isso significa que o sistema europeu, no final das contas, deverá custar algumas vezes essa quantia.

As oportunidades de mercado parecem amplas e variadas. A Comissão Europeia trabalha em seis áreas prioritárias identificadas na já referida avaliação de impacto que acompanha seu Plano de Ação sobre aplicações dos sistemas globais de navegação por satélites: aplicativos para celulares e telefones móveis; transporte rodoviário; aviação; transporte marítimo; agricultura de precisão e proteção do meio ambiente; proteção civil e vigilância.

O Beidou, em verdade, é capítulo essencial de um programa espacial bem maior e mais ambicioso, que inclui a construção de uma estação espacial até o final da década e ainda o plano eventual de enviar uma missão tripulada à Lua.

A China, país mais populoso do mundo, ainda tem cerca de 400 milhões de habitantes para retirar da pobreza e da miséria, e incluir no mercado interno, como já fez com outros 300 milhões. O país cresceu como nenhum outro nos últimos 20/30 anos e hoje cresce a um ritmo menor, mas ainda invejável. Continua atrás dos EUA e da Rússia em campos estratégicos como o espacial, mas deles se aproxima rapidamente.

De quantos GNSS o planeta precisa? “Logicamente, apenas um único GNSS é preciso. Vários provedores utilizam desnecessariamente o espectro de radiofrequência, seus satélites ocupam posições orbitais e seus lançamentos podem muito bem aumentar o problema do lixo espacial. Mas defender o funcionamento de apenas um sistema é ignorar realidades históricas, políticas e econômicas. Há razões militares para a existência do GPS, do GLONASS e do Beidou mas a economia e a política também são relevantes e certamente estão presentes no Galileo civil. No entanto, à medida que cresce a dependência do GNSS, há vantagens na multiplicidade de sistemas. Em havendo interoperabilidade, ou podendo os usuários acessarem mais de um sistema, cria-se uma redundância útil. O GNSS é inerentemente frágil. O lixo espacial pode abater satélites, assim como podem fazê-lo as tempestades solares. Essas últimas, junto com interferências terrestres, naturais ou artificiais, também podem desintegrar um GNSS ou um sinal ampliado,” escrevem o escocês Francis Lyal e o norte-americano Paul B. Larsen.¹

Dilema do século XXI – Ocorre que uma coisa é haver vários sistemas interligados em redes parceiras, capazes de ser acessados e operados simultaneamente em benefício geral; outra coisa é haver, como hoje, sistemas prontos para entrarem em ação num conflito militar de consequências imprevisíveis, movimentando até armas de destruição em massa – de que ainda temos em quantidade demencial (19 mil ogivas nucleares existem atualmente no mundo, sem falar nos estoques de armas químicas).

A crescente e já imensa utilidade pacífica da navegação e posicionamento por satélite permite supor que ainda neste século poderemos alcançar um nível de cooperação internacional capaz de nos livrar das guerras e catástrofes de extermínio em massa. Ou será que só nos resta o 21 de dezembro de 2012 da previsão maia, apenas adiado para um futuro “mais favorável”?

 

* Chefe da Assessoria de Cooperação Internacional da Agência Espacial Brasileira (AEB)

1) Lyall, Francis, and Larsen, Paul B, Space Law – A Treatise, England: Ashgate, 2009, p. 401