BALÕES, AMIGOS INFLÁVEIS
Publicado em: Brasília, 4 de fevereiro de 2013

José Monserrat Filho *

 

“Há alguma coisa no ar além dos aviões de carreira.”

Aparício Torelly, o Barão de Itararé (1895-1971)

 

A conceituada revista científica Nature, em sua edição de 31 de janeiro passado, anuncia, em editorial, que os balões de pesquisa científica que tanto nos ensinaram sobre a atmosfera, irão agora prestar serviços no espaço exterior. Eles seriam práticos, baratos, eficientes e seguros.

O editorial começa lembrando o físico suíço Auguste Piccard (1884-1962), pioneiro dos balões pesquisa, que, além de pesquisador emérito, projetou-se também como inventor.

Conta a lenda, e a Nature a confirma, que o famoso cartunista bela Hergé, criador das aventuras de Tintin em quadrinhos, hoje conhecidas em praticamente todo o mundo, inspirou-se no estranho perfil de Piccard para conceber a figura do cientista amigo de Tintin, o Professor Cuthbert Calculus, cujo nome, por si só, já é um enigma. Hergé o teria visto uma vez numa rua de Bruxelas e nunca mais o esquecera.

“A pesquisa é esporte de cientista”, disse uma vez Piccard, recorda o editorial.

Em 1930, Piccard projetou uma gôndola de aço pressurizado pendurada num balão para transportar passageiros e equipamentos de laboratório. A gôndola logo converteu-se naquele tipo de submarino que hoje conhecemos como batiscafo, destinado a investigar as profundezas oceânicas. Mas, um ano depois, em 1931, Piccard e seu colega Paul Kipfer começaram a usar o novo balão dotado de uma gôndola especial no estudo da atmosfera, em alturas de até 15.785 metros, sobretudo na busca de raios cósmicos, que haviam sido descobertos em 1912 pelo físico austríaco Victor Hess.

Desde então, diz a Nature, os balões de pesquisa foram mais alto e mais longe. Na semana passada, um balão de longa duração da NASA rompeu o recorde de permanência no ar ao registrar 46 dias sobre o Polo Norte, sob o impacto de ventos fortes e do céu gelado. Não há cientistas a bordo, mas o objetivo é o mesmo dos tempos de Piccard: o balão flutua a cerca de 39km da face da Terra e transporta o Super Trans-Iron Galactic Element Recorder, que peneira os raios cósmicos de alta energia à procura de elementos pesados raros.

Mas os balões podem ir ainda mais longe. Podem ir ao espaço, garante a revista. A  Nasa pensa num balão enlaçado à Estação Espacial Internacional. A agência o batizou de “módulo de atividade de expansão”, enquanto alguns jornais e revistas o chamaram de “balão espacial gigante” e “castelo inflável”. Esse balão espacial poderá prestar bons serviços não apenas às pesquisas científicas. Ele tem condições também de ajudar na construção de estações espaciais, como base dos astronautas operários e do material necessário ao trabalho. As vantagens parecem óbvias: o balão espacial é compacto, muito mais barato de ser lançado e de permanecer lá em cima. Um requisito, contudo, é vital: ele deve ser efetivamente capaz de repelir a radiação e os micrometeoritos ponte-agudos, os inimigos da vida no espaço. Por tudo isso, a Nasa negocia com a entidade que desenvolveu o revolucionário balão, a empresa Bigelow Aerospace (Las Vegas, Nevada, EUA), sobre como testá-lo em órbita com gente vivendo e trabalhando lá dentro

Balões, digamos, corajosos também foram lançados no passado. Os rockoons, criados por James Van Allen, da Universidade de Iowa, EUA, em 1950, carregavam foguetes de sondagem até  grande altura na atmosfera e dali os lançavam a altas órbitas. Ao caírem de volta na Terra, eles traziam registros de camadas de radiação concentrada além da atmosfera. Isso levou à descoberta do Cinturão de Van Allen, anunciada em 1958, importante conquista dos cientistas americanos. Balões, aliás, também já foram usados para lançar foguetes ao espaço.

No currículo dos Balões constam, igualmente, o transporte de câmeras e telescópios para sondar diferentes regiões do espectro electromagnético, bem como o envio de plantas e animais à estratosfera. Fabricados de plástico e borracha, e usados individualmente ou em frotas, eles seguem sendo “plataformas silenciosas e surpreendentemente estáveis para a ciência”, afirma a Nature. Ademais, são competentes bases para testar instrumentos e técnicas, que um dia voarão no espaço.             A revista conclui, prestando reverência ao “humilde balão”, que, modestamente, tem um brilhante futuro pela frente.

Os nossos balões

O Brasil avançou muito na técnica dos balões meteorológicos, que em geral sobem até a estratosfera (entre 7 e 17 até 50 km de altitude), mas podem chegar à mesosfera (entre 50 a 85 km de altitude). As sondas (sensores que transmitem informações em tempo real) que os balões transportam medem a pressão atmosférica, a temperatura e a umidade relativa do ar, em altitude. O processo, chamado radiossondagem, analisa dados para as previsões meteorológicas, determinando com mais eficiência a possibilidade de chuvas, frentes frias e tormentas.

Indispensáveis à meteorologia de hoje, os balões são lançados por estações meteorológicas, pertencentes a institutos de pesquisas, universidades, entidades públicas e privadas, e às Forças Armadas. A maioria dessas estações está subordinada ao Comando da Aeronáutica.

Mais de três mil balões, segundo se calcula, são laçados diariamente na atmosfera.

O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) mantém o Setor de Lançamento de Balões (SLB), criado em 1969, para prestar apoio técnico e de infra-estrutura aos nossos pesquisadores e a instituições nacionais ou estrangeiras que careçam de um equipamento espacial de baixo custo para efetuar pesquisas em ambiente fora da superfície da Terra. O SLB gerencia, planeja e executa laçamentos, rastreio e recuperação da carga útil. E já realizou mais de cem lançamentos de balões estratosféricos, envolvidos com pesquisas em muitas áreas do conhecimento.

De acordo com o site do INPE, o SLB tem doze funcionários: dois tecnologistas, seis técnicos, três bolsistas e uma secretária. O chefe do setor é o tecnologista José Oscar Fernandes.

A base de lançamento de balões do SLB situa-se na unidade do INPE em Cachoeira Paulista, São Paulo, onde fica também o Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC).

Lançamentos de balões estratosféricos já foram realizados, entre outros, nos seguintes locais: Campus da Universidade Federal de Santa Maria, em Santa Maria, Rio Grande do Sul; Aeroporto Domingos Rego, em Timon, Maranhão; e Aeroporto de Nova Ponte, em Nova Ponte, Minas Gerais.

O Brasil, claro, ainda não tem planos nem a ambição remota de criar e/ou usar balões no espaço exterior. Mas não se pode excluir a possibilidade de que, mais cedo ou mais tarde, esse novo veículo espacial ¨C de perspectivas cada vez mais exploradas ¨C venha a nos desafiar, como já o fez com tantos outros países, inclusive com o nosso parceiro estratégico global, a China.

Enfim, como acreditar que a Nature tivesse decidido usar seu poderoso espaço editorial para escrever sobre balões se algo novo e promissor não estivesse de fato pintando no horizonte?

 

            * Chefe da Assessoria de Cooperação Internacional da AEB.