Notícias

Agência Espacial Brasileira se preocupa com impactos gerados por detritos no espaço

Publicado em: 30/05/2018 09h46 Última modificação: 12/06/2018 11h46
Observatório do Pico dos Dias. Crédito: LNA

A recente queda da estação espacial chinesa Tiangong-1 trouxe consigo renovados temores dos perigos representados pela grande quantidade de lixo espacial que cobre a órbita da Terra. Com 12 satélites ativos, o que corresponde a 0,95% do total de objetos lançados pelos Estados Unidos, o Brasil não é um grande produtor de detritos no espaço. Ainda assim, segundo o tecnologista da Agência Espacial Brasileira (AEB) Ademir Xavier, o país goza do status de “Estado lançador”, o que gera à AEB a responsabilidade de registrar objetos espaciais brasileiros para que seja possível contabilizar possíveis impactos ambientais.

Há pouco mais de dois anos, a AEB intermediou uma parceria inédita entre o Laboratório Nacional de Astrofísica (LNA) e a Agência Espacial Russa (Roscosmos) para a instalação de um telescópio russo dedicado ao rastreamento e monitoramento de lixo espacial. Essa parceria reforçou a preocupação do país com o tema e deu maior visibilidade aos esforços empreendidos na promoção de ações que conscientizassem entes públicos e privados, além da própria comunidade científica, sobre a emergência do uso sustentável do espaço.

Xavier lembra que a quantidade de detritos tende a aumentar por conta dos fragmentos gerados a partir de colisões entre artefatos sem função no espaço e do aumento do número de lançamentos previstos pelo mercado espacial.  De fato, relatório recente da Satellite Applications Catapult, empresa especializada em tecnologia e inovação, pontua que aproximadamente 1.300 pequenos satélites (com peso inferior a 500kg) devam ser lançados no período 2017-2020. Para se ter uma dimensão desses números, são quase 16,5% do total de lançamentos nos últimos 60 anos.

Publicações recentes da Agência Espacial Europeia (ESA) registram que a quantidade de lixo no espaço atualmente soma 7,5 mil toneladas. São restos de satélites ou lançadores, naves desativadas ou, até mesmo, peças perdidas que orbitam em velocidades espantosas, algo entre 27 e 54 mil quilômetros por hora. Para se ter uma ideia do que isso significa, um objeto de um centímetro, numa eventual colisão com outro artefato no espaço, possui energia comparável à explosão de uma granada de mão. Fragmentos um pouco maiores, entre 1 e 10 cm, têm potencial para danificar seriamente qualquer um dos 1.738 satélites que ainda estão ativos, e que são essenciais para a eficiência de serviços como navegação, telecomunicações e observação da Terra, por exemplo.

Embora haja pouca chance de que a queda de rejeitos espaciais tenha consequências adversas para seres humanos – seja pelo fato de as terras emersas representarem apenas 29% da superfície terrestre, seja pelo fato de esses objetos serem consideravelmente incinerados em sua trajetória descendente –, se não houver um esforço de redução desse tipo de sucata, em poucas décadas será inviável a utilização da órbita baixa da Terra para a operação de satélites de sensoriamento remoto e meteorologia.

Formas de monitoramento

PanEos 1

Imagem obtida com o telescópio PanEos no Pico dos Dias na missão de testes de março. A imagem tem 5 x 5 graus (veja comparação com o tamanho da lua cheia no canto esquerdo acima). Nas ampliações é possível ver alguns dos objetos identificados nesta imagem. Crédito: LNA

Existem duas formas de monitoramento, explica Xavier, os chamados métodos ativos e passivos. O uso de um radar é um exemplo de método ativo, sendo mais caro, mas mais eficiente por envolver sistemas de eco de alta potência que pode atingir distâncias consideráveis. Essencialmente, um feixe de ondas de rádio é emitido e se detecta seu eco. Com base no tempo que as ondas levam para serem refletidas, pode-se saber onde o objeto está e qual a sua dimensão. A eficiência é alta, pois é possível detectar objetos com centímetros de dimensão. O rastreamento também é possível ao se utilizar reflexão por feixe de laser, sendo esse outro método ativo.

Um exemplo de método passivo é o óptico, que envolve o uso de telescópios que observam objetos movendo-se contra o fundo do céu quando esses são iluminados pelo sol. O método é limitado no tamanho do objeto que pode ser detectado e pelo fato de exigir que o sol o ilumine, mas tem significativa eficiência e serve como checagem da base de dados dos objetos ativamente detectados.

Os avanços no Brasil

Inaugurado em abril de 2017, o telescópio dedicado ao monitoramento de lixo espacial foi instalado no Observatório do Pico dos Dias (OPD), em Brazópolis (MG). Com o LNA como parceiro no Hemisfério Sul, a Roscosmos, que opera equipamento semelhante na Rússia, consegue localizar detritos com maior precisão. As coordenadas desses objetos são posteriormente enviadas à ESA e à Agência Espacial Norte-Americana (Nasa), para serem inseridas em um catálogo internacional. O LNA informa que, graças ao novo telescópio, já é possível mapear entre 500 e 800 rejeitos espaciais por noite.

Além desse monitoramento óptico, há diversos estudos publicados no Brasil que investigam formas de contribuição do país na mitigação do problema de detritos espaciais. Os atuais executores das missões espaciais brasileiras já adotam padrões internacionais de planejamento de projeto na direção de reduzir o risco de impactos pela exigência de planejamento de reentrada.  O país também conta com iniciativas acadêmicas para o cálculo de propagação de detritos. Especialistas que atuam em universidades brasileiras vêm desenvolvendo projetos no intuito de prever, com bastante antecedência, possíveis colisões.

 

Curiosidades

Coordenação de Comunicação Social

Registrado em:
Assunto(s):
Voltar para o topo